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Considerações sobre a desigualdade

Considerações sobre a desigualdade

Nas últimas semanas, um dos assuntos que dominou o cenário internacional foram as manifestações no Chile, que começaram na segunda metade de outubro devido ao aumento do custo das passagens do metrô de Santiago e já são consideradas as maiores manifestações desde a redemocratização chilena. Após um início razoavelmente pacífico, houve uma escalada de violência, e até o momento que escrevo essas linhas já são 23 mortos nas manifestações.

Grande parte da mídia tem adotado a narrativa de que a forte aderência às manifestações chilenas é devida à “forte desigualdade causada pelo regime neoliberal imposto no país”. Além de me parecer uma afirmação um tanto quanto incongruente com a realidade chilena, ela tem dois conceitos que merecem ser tratados com cuidado: desigualdade e neoliberalismo. Neste texto daremos um enfoque especial para o primeiro.

Primeiramente, é interessante ressaltar que a desigualdade sempre foi um conceito utilizado por teorias mais à esquerda no embate ideológico para criticar o sistema capitalista de organização da produção, o que torna o tratamento de problemas relacionados à desigualdade normalmente difíceis de solucionar, dado que a utilização da “bandeira” do combate à desigualdade com fins políticos normalmente é colocada acima da resolução do problema de fato. Além do mais, a redução da desigualdade tende a reduzir a dependência do indivíduo do auxílio estatal, o que permite uma redução do aparato estatal, redução esta que é negativa para a burocracia do estado (políticos, funcionários públicos etc.).

Adicionalmente, a desigualdade por si só não pode ser considerada um problema grave. Assim como “ninguém come PIB” (parafraseando a economista Maria da Conceição Tavares), a desigualdade por si só não mata ninguém de fome. A realidade é que a desigualdade é um dos motores lógicos e morais do capitalismo, é negar isso é ter uma visão romancista demais do sistema. Apesar de todas as falhas nos mecanismos meritocráticos, o capitalismo é o pior sistema econômico para se ascender socialmente (excluindo-se todos os outros, obviamente).

O que quero dizer é que, para produzir toda a riqueza que somente o sistema capitalista permite produzir, certo nível de desigualdade de renda e de riqueza é necessária. A ideia é que mesmo os que recebem a menor renda tenham uma vida digna em vista dos padrões históricos e culturais de uma determinada economia. Para ilustrar meu argumento, deixo uma pergunta para o leitor: você preferiria viver no igualitário Cazaquistão (27.2 no índice de Gini em 2016) ou nos desiguais Estados Unidos da América (41.5 no índice de Gini em 2016, lembrando que valores maiores representam maior desigualdade)?

Para não encerrar o texto sem nenhum dado sobre a economia chilena, é interessante observar que até 2017 (último ano disponível no site da ONU) o Chile observava 9 anos consecutivos de aumento do Índice de Desenvolvimento Humano. Será que os protestos realmente se justificam, ou o Chile foi mais uma nação capturada pelo discurso populista que tanto aflige esse pobre continente latino?

Por Alef Dias

Tags: Economia


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